Eu já desconfiara, em
julho, quando Maria Antonia enfileirou dezenas e canções
hispânicas, irradiando a casa com termos absolutamente chicanos.
Minha filha de 9 anos, que mora em Fortaleza, precisava de um
choque de ordem musical. Sentei-a à mesa e empurrei goela adentro a
história de Chico Buarque e Tom Jobim, diante de um tédio
desanimador. Achava que era algo enfronhado na cultura do lugar
onde mora. Até ir com
ela, ontem (domingo) ao show da Isa TKM, heroína, eu descobri, de
toda a Zona Sul carioca. Os ídolos da minha filha e de milhares de
novas patricinhas são mexicanos. Foi difícil entender por que
milhares de crianças se empurravam n Vivo Rio para ver a mocinha da
Nickelodeon, cuja novelinha diária, dizem, vai ser exibida na
Band.
Voltei no
tempo e lembrei, obviamente, do Menudo e adjacências. Havia a mesma
fervura, só que, sem a internet, tínhamos um limite para abarcar o
pior que a cultura latina poderia nos oferecer. Mesmo assim, os
pais levavam seus filhos aos estádios para ver Robby e Cia
rebolarem ao som de Não se
reprima.
Maria Antonia para tudo
às 19h. Quando a novela feita em coprodução com a Sony Pictures
Television, de 52 minutos de duração, escrita pela autora
venezuelana Mariela Romero, vai ao ar, não há português que a tire
de frente da TV. Estamos falando de uma hipnose fatal. Estamos
agora no Rio de Janeiro, talvez um dos dias mais importantes da
vida da minha filha. Ela vai poder cantar e bailar as 11 músicas
que Isa Tkm, num momento do show, sabiamente, revela sua ansiedade:
“Não sabíamos se vocês iam gostar de nossas músicas. Estamos
muito felizes por isso”, disse a mocinha diante da ovação
histérica dos fãs dos Beatles mexicanos.
O show é playback,
claro. Com coreografia urdida na tradição porto-riquenha, quase
aeróbica. E conta a historinha de Isa Tkm, que é apaixonada pelo
garotão Alex, este dividido entre ela e uma outra menina que usa de
várias artimanhas para mantê-la longe do sujeito. Roteirinho
previsível. O espetáculo, com alguma pirotecnia, é pura reprodução
do que funciona direitinho na TV.
Vejo Paulinho Moska e
filho passarem e um monte de conhecidos, jornalistas, claro. Todos,
decerto, intimamente pensando, “Onde vamos parar com
isso?”. Numa criação mais controlada, Isa Tkm não
faria parte do dia a
dia da minha filha.
Mas estamos sem tempo, o mundo pede a nossa presença, as contas, os
problemas, o trabalho e o futuro. Eu, então... minha filha mora em
Fortaleza. Ela vai ficar dividida entre o forró e Isa Tkm e não há
nada que eu possa fazer, a não ser enfiar MPB em seus ouvidos.
Momentos que, eu sinto, são de pleno terror para ela.
Não há espaço para andar no Vivo Rio, a casa
de shows da companhia de celular no Aterro do Flamengo, alocada no
MAM. Compramos uma bandana a R$ 10, e minha filha carrega um cartaz
todo colado em papel A4 com dizeres como “Isa, em Brasil!
Besos!”. Na primeira parte do show ela não consegue ver nada.
Vamos combinar que eu, com quase 40 anos, não tenho tanta força
muscular para botar no pescoço uma menina que está pesando 44
quilos, em meio a uma multidão. É quando alguém da produção pede
aos pais que sentem para que seus filhos possam ver o show. Na
segunda metade do espetáculo, então, aproveito a deixa para botar
Maria na grade, colada no palco. É quando seus sonhos são
realizadas. Ela consegue botar tocar a mão nas mãos de Isa e Alex.
Diz que não quer tomar banho por muito tempo. Eu calo. Vejo que não
é o momento de tirar o prazer chicano de minha filha. Amplificado
por aquela horda de crianças exauridas.